segunda-feira, 22 de março de 2010

Pero no más. Rapsódia de um fato comum.

Sábado. Acordou 6:30 da manhã e sentiu o vívido vento frio de julho fustigar impiedoso a janela do quarto. Levantou, pé pós pé no piso gelado, sentindo cortar. "-Puta merda!", pensou de imediato. Não se referia ao frio.
Vestiu-se com calma, tão ansiosamente quanto a hora matutina permitia. A calça surrada, o All Star de guerra, uma camiseta e um blusão por sob um paletó de veludo marrom. Achatou os cabelos comuns, pondo neles o já tradicional chapéu coco de feltro preto. Fez seu café: um gole amargo bebido de vontade. 7:20. Catou o Veríssimo marcado da noite anterior, que dormiu sobre seu peito arfante, fazendo companhia apenas à rosa flor murcha que há tempos já não enfeita a cabeceira.
Rumou para a praça próxima e sentou num de seus bancos. Um senhor dava comida aos pombos, as únicas viv'almas da rua naquela manhã. Aquele senhor... outrora tão dono do tempo, tão Rei de si mesmo, agora buscava refúgio do mundo com seus melhores e únicos e amigos. A vida é dura e gelada afinal, como esse inverno. Mas havia de ser diferente, pensou. Pensou...
9:30. Levantou e rumou de volta pra casa, ignorando o temporal que se formava sobre sua cabeça. Cinza. Cinzas de mais um cigarro. Mais borra de café.
Quando o temporal desceu, ele sentiu esvair-se um pouco mais da luz que já estava apagada lá dentro. Falhou, piscou e quase se foi. Ele também. Desceu as escadas, cruzou as ruas e viu a janela. Estava escura. Esperou, esperou, nada aconteceu. Voltou. Ela realmente tinha ido. Os erros, ah o cinza, a cena.

Deitou e dormiu sozinho mais uma vez, sem esperar o revés de um final.

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