quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Sobre uma vida.

Um dia tu nasce. Fica lá, durante nove meses, enchendo o saco da tua mãe. Aí tu veio, chorão e mijão. Tu custa a te acostumar com esse mundo estranho, que todo mundo te olha com caras bizarras e faz barulhos estranhos. Só mais tarde é que tu vais descobrir que eles estavam só tentando te agradar e te fazer rir. Tu passa pela fase das fraldas e entra na tua infância, que é recheada de surpresas agradáveis. Ou não, em diversos casos. Tu aprende que se tu botar os dedos nos dois buraquinhos da parede, tu não vais virar o aspirador da tua mãe e sair sugando tudo, mas vai tomar um baita choque e chorar meia hora até alguém te acalmar. Vai ser assim com a tua primeira bicicleta, que tu vai cair e ralar os joelhos umas mil vezes até aprender a pedalar. Tu vai descobrir pra que existe aquele troço pendurado em ti, que todo mundo insiste em chamar de piu-piu. Tu vai pro colégio pela primeira vez e lá tu vai ver muita gente igual a ti, mas com costumes diferentes. Tu vais ter o amigo que come cola, a guriazinha que é toda metida e sabe amarrar os cadarços e os caras malvadões, que formam gangs, e o principal delito é estourar caixa de Toddynho. Com muito esforço tu vais te enturmar e fazer teu círculo de amizades, que vai durar por muito anos. A duras penas tu aprende que tem sim que estudar pras provas das séries mais adiantadas, e que ser goleiro da turma nem sempre é garantia de sucesso. Tu começa a ver desenhos e seguir a moda deles, e faz o teu máximo pra ser o melhor da turma. Tu passa pelo fundamental e vai pro médio, e a tua cinta aperta. Tu tenta de todo jeito seguir as influências do momento, e ser aceito pelo maior número possível de pessoas, quem sabe até ser popular! E tu descobre que a coisa não é assim, e que ninguém é teu amigo, e que o teu rim está a prêmio, muitas das vezes. E tu supera tua timidez e tenta tua primeira namorada. Tu gagueja, treme, baba, vira os olhos, esfrega as mãos, supera teus medos, te declara, te arruma todo, chega nela e ela te dá um pé na bunda. E aí tu chora, enquanto tenta passar de ano e decidir teu futuro, conciliando vida social, amigos, colégio, amor e tudo mais. Aí tu arrumas uma namorada, termina o colégio, e lá vem mais problemas. Tu tenta manter teu namoro enquanto faz a decisão da tua vida. Tu decide que caminho seguir, começa a faculdade, tentando subir na vida. E aí tenta estágio e primeiro emprego, vira noites estudando, passa no teste e vai trabalhar, completamente livre das preocupações juvenis. Aí vem água, luz, telefone, roupa, comida, e tu vira mais noites trabalhando, e rala pra conseguir viver, enquanto tem gente tentando te derrubar. E aí tu casa com aquela mulher linda, que é a tua namorada, e vocês vão ser felizes juntos. Tu rala mais ainda e sobe de posto, melhora de vida, e o nível de vocês tá em alta, quando ele vem. O mijão vai habitar tua esposa por 9 meses, assim como tu fez, e vai ser a aliança máxima do casal. E aí, meu irmão, tu vai ver que o que era suficiente pra vocês, agora é pouco. E tu batalha mais ainda, consegue um cargo super bom, e trabalha que nem um cavalo, e não dorme denoite, porque o chorão sujou as fraldas. E tu segue batalhando, matando quem quer te matar, e aguentando reuniões de pais na escola, onde tu descobre que o teu filho atirou uma caixa de Toddynho no nariz do coleguinha. E tu fica velho, e é uma luta pra se aposentar, e quando se aposenta, é outra luta pra receber. E tu tem que aguentar teu neto atirando pedra e mexendo nas tuas coisas, e tu faz das tripas um coração pra todos a tua volta serem felizes, viverem felizes, terem um futuro promissor...


E aí tu morre.



Qual o fundamento disso?

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